A I.A vai mudar tudo? Vai, mas não jeito que tu imagina

Do boom ao cabum: a inovação de hoje será só mais uma assinatura de serviço padrão no futuro.

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O Início

O estudo e o desenvolvimento de IAs não começaram a partir da popularização do ChatGPT. Se fosse esse o caso, empresas como Google, Meta, Manus, DeepSeek, entre outras, não teriam lançado seus modelos tão rápido — as inteligências artificiais são estudadas e estão em desenvolvimento quase 80 anos.

Os primeiros estudos teóricos iniciaram em 1943 com Warren McCulloch e Walter Pitts quando eles apresentaram a ideia de um modelo matemático de neurônios artificiais, criando, assim, as primeiras bases conceituais. Em 1950, Alan Turing publicou o “Computing Machinery and Intelligence onde propunha o “Teste de Turing” para avaliar se uma máquina apresentava, de fato, um comportamento inteligente

Alan Turing é considerado o pai da computação. Ele desenvolveu um dos primeiros computadores funcionais do mundo para quebrar a criptografia das máquinas Enigma, usadas pelo exército nazista para transmitir informações. Isso possibilitou encurtar a guerra em muitos anos, mas, pelo fato de ser gay, ele foi preso, processado e passou por castração química, o que o levou ao suicídio em 1954.

Em 1956 é quando, de fato, nasce o termo Inteligência Artificial, durante a Conferência de Dartmouth (Dartmouth Summer Research Project on Artificial Intelligence), em New Hampshire, EUA. Organizada por nomes como John McCarthy, Marvin Minsky, Nathaniel Rochester e Claude Shannon, o evento é considerado até hoje como o marco fundador da IA como estudo acadêmico.

A partir daí até 1970, acontecem os primeiros desenvolvimentos na área, como Logic Theorist, General Problem Solver e o primeiro chatbot, o ELIZA em 1966. Porém, existia muita expectativa, promessa e pouco resultado, limitados também pela tecnologia da época. De 1970 a 1980, o investimento nessa área foi mínimo.

Já na década de 1980, a tecnologia havia avançado, permitindo que sistemas baseados em regras começassem a ter aplicações comerciais. De 1990 a 2000, iniciou-se o machine learning, onde regras lógicas saem de cena, dando espaço para o aprendizado estatístico a partir de dados (aprendizagem de máquina).

Seguindo a evolução do tema, já em 2010 inicia-se o deep learning (aprendizagem profunda), onde começam a surgir as redes neurais graças ao poder computacional das GPUs e ao big data (produção e armazenamento em massa de dados), permitindo o reconhecimento de imagens e o processamento de linguagem natural.

Tu lembras quando, anos atrás, surgiam aquelas trends no Facebook e outras redes sociais de publicar uma foto sua de 10 ou 20 anos atrás e uma de hoje? Ou, no mês das crianças, de trocar a sua foto atual por uma de quando você era um pimpolho fofo? Então, você ajudou a IA, de graça, a fazer reconhecimento de imagens.

De 2020 para frente, tivemos o desenvolvimento e a liberação ao público das IAs como conhecemos hoje: modelos de larga escala, sendo popularizados inicialmente pela OpenAI via ChatGPT, que, como quase todo serviço nesse mundo, começou de graça ou quase de graça. Daí o preço aumentou, a publicidade apareceu, tu pagas mais para não ver publicidade, mas o plano fica limitado, então tu tens que pagar mais ainda para ter o mesmo que tinha antes, até chegarmos a Black Mirror.

No fim, tu ficas te achando super moderno porque começou a usar a IA na pandemia, fazendo e acontecendo, caindo no papo desse monte de coach e cursos que dizem que vão te ajudar a dominar a IA sem ter noção de que tu e esse povo todo chegaram, na verdade, atrasados como todo mundo. E querem desesperadamente parecer que dominam a coisa para conseguir uma posição melhor no mercado de trabalho ou para não perder o emprego para uma IA.

O que posso te dizer é que, a curto e médio prazo, a IA não vai roubar o teu emprego. Haverão mudanças em alguns setores, mas o resto segue como sempre foi.

É muita publicidade e pouca aplicabilidade

O que é importante ter em mente hoje é que as IAs que temos, tanto gratuitas como pagas, não são inteligentes: não há pensamento crítico, conflito ético, sinapses neurais que conectem diversos assuntos, lembranças, aprendizagem real ou referências. Elas também não conseguem, a partir do zero, criar algo novo, inovador ou, de fato, inteligente.

As IAs são basicamente milhares e milhares de minions correndo entre estantes virtuais, vasculhando uma quantidade gigante de papiros, fazendo cálculos e mais cálculos para tentar prever o que tu precisas quando pedes para ela criar algo.

  • Quando tu pedes para ela criar uma imagem, ela vai vasculhar aquela Alexandria digital atrás de tudo que é imagem que existe dentro do que tu procuras, ver o que foi mais usado e quais referências deram certo, para te entregar o que tu pediste, dentro daquelas referências que ela possui. E daí começam os milhares de ajustes seguidos que pedimos, até chegar no que queremos — o que consome todo o crédito de IA do dia;
  • Quando tu pedes para ela criar um texto lindo, perfeito, único e erudito para usar em um e-mail profissional, trabalho de escola, dissertação de mestrado, etc., os minions voltam enlouquecidos procurando tudo o que foi escrito, dito, aprovado ou não. Com base nisso, te passam um texto quase genérico. Mas os minions não criam nada; então, se uma pessoa colocou uma referência errada, inventou um autor, errou o nome ou usou informações “das vozes da própria cabeça”, a IA vai te trazer aquilo como válido, pois está em meio aos papiros;
  • Quando tu pedes para a IA automatizar uma ou várias ações ou funções, ela irá fazer cartesianamente o que foi pedido — ela não tem aquela malemolência do ser humano para saber lidar com as loucuras que as pessoas fazem, com gírias, com vários nomes para a mesma coisa, com inúmeras possibilidades de transmitir a mesma ideia, ou com a capacidade de passar informações corretas em campos ou locais incorretos. E mesmo que tu programes todas as possibilidades possíveis, o ser humano sempre irá se superar, fazer algo catastroficamente novo e ferrará aquela bela automação que tu criaste.

Por essas e outras inúmeras situações, é importante entender que aquilo que o CEO da empresa de IA fala e vende como milagres mágicos de alta capacidade, na verdade, é uma fadinha do dente minguada e com bem menos capacidade do que o prometido. Basicamente, eles vendem um Hummer, mas entregam um Kwid: ele vai te levar lá, mas mais devagar, menos confortável, com menos segurança e com menos capacidade.

Isso quer dizer que a IA é ruim? De jeito nenhum. Mas significa que ela é bem menos capaz, poderosa e disruptiva do que se imagina. Enquanto não surgir a AGI — e duvido que isso de fato aconteça ao menos nos próximos 100 anos —, ela será o que é hoje: uma analisadora de dados em grande escala, que usa esses dados para gerar uma resposta à tua solicitação com base naquilo que ela tem para analisar. Ela não criará nada do zero com base no que ela tem; ela vai gerar um modelo estatístico e transformá-lo em imagem, música, vídeo, código, texto, etc.

O que da para fazer com a IA hoje então?

Muita coisa, mas com ressalva:

  • Criação e manipulação de imagens: Quase todos os modelos de IA hoje criam imagens, e com uma qualidade incrível até. Com poucos comandos, tu consegues criar algo que não conseguirias fazer por não saber como, por não dominar as ferramentas ou, simplesmente, por não ter talento para tal. No entanto, em todas as IAs, mesmo que tu peças para criar imagens realistas — principalmente quando há rostos envolvidos —, é perceptível que aquilo não é real. Seja por falhas grotescas, como dedos a mais e braços de menos, ou por uma textura de pele perfeita demais. Até o momento, nenhuma delas consegue, de fato, substituir a fotografia;
  • Criação de Vídeos: Tudo o que vale para imagens, vale para a criação de vídeos. Lembrando que os modelos gratuitos, e mesmo os pagos, têm grande limitação do tempo que um vídeo pode ter, pois isso exige uma quantidade gigantesca de processamento de dados. Então, não aches que tu vais fazer o upload do teu roteiro de quatro horas e meia de um novo Star Wars e que receberás o filme pronto. Mas, dentro das capacidades atuais, as IAs de vídeo já podem ser usadas com tranquilidade;
  • Criação de Textos: Aqui temos um grande problema. Ela cria, de fato, até bons textos, mas geralmente beira o plágio com alucinações. Como as IAs usam como base as informações disponíveis, que já vêm de textos de outras pessoas, elas passam a repetir o estilo de escrita que mais aparece dentro do assunto que tu procuras — quer seja um belo plágio de Platão ou a loucura de um terraplanista. Então, o que eu aconselho é: usar a IA para revisar a ortografia daquilo que tu escreveste ou para buscar informações resumidas do tema que tu procuras, mas sempre citando as fontes para conferência.
  • Analisar seus próprios dados: a IA fará isso de forma mais prática, rápida e até poderá te dar bons insights das informações que tu tens e que forneces a ela para análise — seja uma planilha em Excel, um amontoado de PDFs, páginas e mais páginas de Word, apresentações, bancos de dados, etc. Tudo o que tu jogares para ela e que os minions saibam lidar, o resultado dificilmente será decepcionante.
  • Automações: seja um chatbot, um FAQ, Wiki, atividades repetitivas, entre outros, desde que não haja uma grande complexidade ou muita variação, elas funcionam de forma razoável. Porém, vale lembrar que a maioria dessas automações precisa que as IAs tenham agentes. É importante ressaltar também que, para automações, é preciso mais poder de processamento. Então, é essencial analisar se essa automação, de fato, irá gerar resultados, pois muitas vezes isso sairá mais caro e menos eficiente do que manter uma pessoa realizando a função que foi automatizada. Além disso, cabe destacar que a grande maioria das empresas que investiram em IA não tiveram aumento de produtividade. A IA saiu mais cara que um funcionário real para apresentar o mesmo resultado, além de as ferramentas não serem confiáveis e exigirem, com frequência, um humano fazendo a correção do que foi gerado;
  • Codificação: Aqui, talvez, seja onde as IAs se saem melhor, pois elas geram códigos para qualquer tipo de programação com maior velocidade e agilidade que qualquer ser humano. Isso tem permitido a pequenas empresas criarem sistemas próprios para usar sem que a pessoa tenha conhecimento de programação — como, por exemplo, o sistema Base 44, que cria sistemas complexos apenas com solicitações feitas em texto. Porém, vale lembrar que criamos softwares, na maioria esmagadora das vezes, para pessoas e não para máquinas. Então, pode haver aqui um aumento de produtividade e até uma certa redução de pessoal, mas é impossível prever o comportamento humano. Logo, sempre será necessário um humano revisando e testando aquilo que foi criado;
  • Criação de áudio: Nesse ponto, a capacidade das IAs é assustadora. Tanto que há álbuns completos feitos por IA entupindo plataformas de streaming de áudio, a tal ponto que o Spotify criou o selo AI Persona para identificar que aquele álbum ou música não é de uma pessoa real. A própria plataforma removeu, só em 2026, 75 milhões de músicas criadas de forma artificial. É aqui que, de fato, o “plágio” acontece de forma mais forte, pois as IAs clonam vozes e o estilo de cantores existentes — ou seja, há gente lucrando com a voz alheia.

Quais as profissões que de fato a IA pode substituir os humanos?

Sendo direto e analisando o contexto atual: nenhuma. Porém, ela já dá sinais de que abalará aquelas que exigem alto grau de conhecimento técnico e análise de dados.

Ao contrário do que se imaginava lá em 2020, quando a coisa entrou na moda, esperava-se que funções de menor complexidade intelectual seriam as primeiras a serem substituídas pela IA. Ou seja, áreas como recepção, call center, atendimento ao público, construção civil, transporte, manufatura, etc., seriam afetadas. Porém, não foram e tão cedo não serão, pois elas lidam com o fator mais imprevisível que existe: o ser humano.

De forma resumida, precisamos entender que não basta ter software se não há hardware. Ou seja, não adianta ser uma IA simpática e empática se ela funciona só dentro de uma Alexa. Como exemplo, podemos usar os terminais de autoatendimento (self check-in) para passagens aéreas: existem desde 1999 e, mesmo assim, quase 30 anos depois, existem muitas pessoas de todas as idades que simplesmente não conseguem fazer. Assim como hoje ainda há pessoas que se atrapalham ao usar um micro-ondas, uma TV, um smartphone, um PC, etc.

Além de não termos a AGI, não temos um corpo sintético que possa substituir um corpo humano. E, ainda que existisse, precisaríamos da capacidade de processamento e armazenamento de dados de um supercomputador rodando em um corpo sintético de 1,70m. Precisaríamos de baterias que suportassem todo esse processamento por, no mínimo, 24 horas e que se carregassem de forma rápida, sem que tu fiques sem o teu robô por 8 ou 12 horas carregando.

A direção autônoma, mesmo que já avançada nos dias de hoje, segue atropelando e matando gente com frequência no mundo. Na construção civil, mesmo que já existam “impressoras 3D” para construir uma casa, elas fazem apenas as paredes. Fundação, aberturas, elétrica, hidráulica, acabamento e outros detalhes ainda precisam ser feitos de forma manual.

Um robô, por mais humano que pareça ou se comporte, não terá jogo de cintura, cumplicidade ou empatia na hora de vender uma roupa, um perfume ou uma fatia de bolo. Assim como ele não perceberá o brilho nos olhos de um cliente ao querer muito um determinado produto e não poder levar — situação em que o atendente daria um jeito de achar um igual de menor preço.

Porém, áreas que exigem conhecimento mais técnico e são menos flexíveis à variabilidade — como direito, análises clínicas, engenharias, programação, arquitetura, sistemas financeiros, contabilidade, P&D, publicidade e marketing — correm o risco, em um futuro não tão distante, de sofrerem uma substituição em massa pela IA. Então, sugiro que tu aprendas sobre agricultura, costura, construção civil, marcenaria e mecânica.

Essa bolha ainda vai estourar

Por fim, por mais que muitos digam o contrário — principalmente os CEOs das empresas que ofertam as IAs —, isso está, sim, se tornando uma bolha. E, quando ela explodir, o cogumelo poderá ser visto do mundo todo.

Os investimentos em IA hoje representam, nos EUA, 2% do PIB do país, o que é algo em torno de US$ 250 bilhões, com projeção de investimentos futuros na casa dos US$ 600 bilhões. Ou seja, é o mesmo que o PIB da Áustria, dos Emirados Árabes Unidos ou da Noruega.

Vale lembrar que os Emirados Árabes Unidos são um dos maiores produtores de petróleo do mundo; a Noruega tem um dos estados de bem-estar social mais altos do mundo, além de produzir gás natural, petróleo e minerais como alumínio e silício; e a Áustria… bom, a Áustria é a Áustria.

As IAs precisam de data centers, e data centers precisam de muito espaço, água e energia elétrica para funcionamento e para o resfriamento. Além disso, exigem componentes eletrônicos que os EUA não produzem — ou quase não produzem —, como GPUs, memórias RAM e SSDs.

Essa demanda gigantesca tornou a indústria de IA a principal responsável pela escassez e pelo aumento de preços desses componentes no mundo inteiro. Isso desencadeou um efeito dominó, fazendo uma cadeia enorme de outros produtos encarecerem. Em um futuro próximo, se o consumo continuar assim, itens essenciais de tecnologia, como smartphones, PCs e videogames, poderão se tornar artigos de luxo extremamente caros ou até mesmo desaparecerem do mercado para o consumidor médio.

IA, que está sendo empurrada em tudo hoje — vai do PC, passando pelo smartphone e chegando até à geladeira —, mais o fato de as empresas não obterem os resultados prometidos (e muitas vezes gastarem mais), e a concorrência chinesa, que oferece o mesmo potencial usando um décimo da capacidade necessária, fará a coisa ruir.

Isso quer dizer que a IA vai sumir? Não. Mas significa que, em um futuro próximo, ela vai se concentrar em poucas empresas, provavelmente se tornará mais cara e não terá o glamour todo que tem hoje. Ela irá virar um serviço utilitário como o buscador do Google: deverá ser oferecida de forma limitada, mas, na sua grande maioria, continuará de forma gratuita e terá publicidade em tudo para custear a sua existência.

Resumindo

A IA, como tudo o que foi novidade, sairá de moda e virará um serviço padrão. Muita empresa vai falir ou se fundir no caminho, dará muito prejuízo para os acionistas e será mais um local para exibição de publicidade.

Ela não vem, de fato, como algo disruptivo, mas sim como uma atualização e unificação de várias ferramentas e tecnologias que já existiam, que funcionavam separadamente, mas que se complementavam entre si. Do mesmo jeito que o smartphone unificou em um mesmo aparelho o telefone, despertador, fax, scanner, mensagens, fotografia, gravação de áudio e vídeo, rádio, tv e assim por diante, a IA irá unificar vários serviços em si mesma, criando mais assinaturas para pagarmos de forma permanente no futuro.

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